Terça-feira, 9 de Março de 2010

Afinal, o que é “hardcore”?

 

 

Enviaram-me um artigo brasileiro a falar sobre o quererá diz "hardcore". Não é recente, mas faz uns pontos interessantes.


Ele começa com uma observação muito interessante: há uns tempos atrás não eram os jogos que eram hardcore, eram os jogadores! Isto é um ponto fundamental. Tive pena que depois de ele dizer isto, fosse tentar definir o que é um jogo hardcore, em vez de continuar a questionar até que ponto é que faz sentido classificar um jogo de hardcore ou não (o Freecell do Windows é dificilmente considerado um jogo hardcore, mas conheço quem o jogue de maneira hardcore). Até porque, no final, a conclusão que ele tira é mesmo a de que não há jogos hardcore (ou "casuais"), apenas jogos.

Sobre os jogos "casuais", também fala de um ponto interessante:

[...]algumas empresas, vendo que aquele estilo de jogo [casual] era supostamente fácil e bem mais barato de produzir[...]

Põe em causa a ideia de que fazer os tais jogos "casuais" é fácil, quando na realidade, fazer jogos que as pessoas queiram jogar é tudo menos fácil. As vendas do shovelware que lançaram para a Wii acabaram por mostrar isso mesmo. Tive pena que depois tentasse também definir o que é um jogo "casual", em vez de continuar com a ideia original do texto (não são os jogos que são hardcore, são as pessoas) e pôr também em causa o conceito "casual" aplicado aos jogos.



Ele menciona no início do texto que a palavra hardcore é usado por uns e por outros, mas parece que ninguém se entende em relação a uma definição. Acho que ele está bastante perto do PORQUÊ de ser difícil definir, ao lançar a ideia de que são os jogadores que são hardcore, e não os jogos. Também fala da igual dificuldade em definir "casual".

Há uma razão para o termo "casual" ser difícil de definir: o termo casual está intimamente ligado ao termo hardcore. Jornalistas e jogadores, consciente ou inconscientemente, usam uma e outra vez a palavra "casual" para indicar aquilo que não é hardcore. "Casual" é uma definição pela negativa do termo hardcore, é o não-hardcore.

A ser assim, não é de admirar que seja difícil definir o que é um jogo "casual". Primeiro, porque o próprio termo é uma definição pela negativa, e as definições são sobre o que as coisas são. Mais importante, se não se consegue chegar a um acordo sobre o que é um jogo hardcore, também não se vai conseguir chegar a uma acordo sobre o que é um jogo casual.



As palavras, no geral, têm um propósito, que é o de podermos comunicar uns com os outros, transmitir ideias. Se as palavras que usamos não estão a conseguir que os outros percebam o que queremos dizer - ao colocar um label "casual" ou hardcore num JOGO, o que significa isso? - essas palavras não nos estão a ajudar.


A tentação de definir estas duas palavras é muito grande. A pessoa que escreveu o artigo achou que não fazia sentido usar as palavras hardcore ou casual em relação aos jogos, mas mesmo assim não conseguiu evitar dar uma definição. Mas tendo em conta de onde vêm estas palavras, é muito provável que nunca fiquem definidas.

 

Há soluções mais práticas - simplesmente não usá-las, ou no caso do termo hardcore, usá-lo com o não-problemático significado anterior, aplicado às pessoas e não aos jogos.

publicado por Terebi-kun às 21:13
link | comentar
6 comentários:
De Yasako a 9 de Março de 2010 às 21:37
...enchanting semantics, parte-me a cabeça a paciência que têm para falar disto! You gotta love it i guess!
De HMA a 10 de Março de 2010 às 14:57
yasaku

http://www.nykola.com/images/dutycalls.jpg
De Yasako a 10 de Março de 2010 às 18:31
Couldn't agree more!

http://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/o1a024b9c/5910047_2hB0c.gif

...hun é Yasako...if you cant spell use ctrl-c/ctrl-v...or don't try at all.
De Diogo Ribeiro a 10 de Março de 2010 às 22:51
Ainda há poucos dias joguei Endless Ocean 2. É essencialmente mais "jogo" que o primeiro, no sentido em que, sem descurar a ideia de uma experiência tranquila, aposta mais (e melhor)em actividades normalmente tipificadas por outros jogos ou géneros. Tanto funciona como experiência casual (de descontrair uns minutos, de jogar por pouco tempo, de "pick up and play") como claramente mais lúdica (explorar o oceano a fundo, descobrir informação sobre espécies, tesouros, etc.). Se é em si um jogo casual ou hardcore...

Bem. Acho que não interessa. Pessoalmente, salvo motivos de força maior ou ditames editorias, esforço-me por usar a expressão. Quando a uso, não é para tentar definir o jogo em si como casual mas a experiência que aposta predominantemente. O caso de jogos como The Sims é precisamente o caso de jogos como os jogos sociais (Mafia Wars, Farmville, and so on). Podem ser jogados hardcore (e é uma dedicação que já presenciei e que envergonharia muitos auto-proclamados jogadores hardcore) como podem ser jogados descontraidamente, porque iludem a noção típica de jogo. São um brinquedo: ao contrário de um jogo, não impõem nenhum objectivo condicionante ao jogador, apenas um sistema com o qual o jogador se pode entreter.

Há muito que apelo para o fim de certas coisas na indústria - termos, atitudes, a mentalidade de jogadores que falam do sucesso financeiro e estatísticas e números como se a vida deles dependesse disso, a "competição" que tenta asfixiar quem apenas quer jogar, etc - mas com certas coisas não penso que seja preciso uma abolição; antes, um maior esclarecimento. Podemos não usar o termo casual, por exemplo, e tentar definir jogos por outros termos (se bem que aí é outro assunto e é um em que provavelmente discordaria, porque cada vez mais os géneros enquanto rotulação revelam-se inuteis) mas por vezes o que temos ainda é o melhor que podemos usar. EO2 será casual, certamente, no sentido em que não exige uma maior dedicação; será hardcore, também, porque se existir uma dedicação ela é recompensada (de salientar que o jogo usa um sistema próprio de "achievements", até, algo que muitos lamentam não haver em mais jogos Wii); será um brinquedo e um jogo, porque considera a exploração um elemento "for itself" como um elemento fundamental da experiência de jogo em si. O problema, penso eu, é a exclusão de todos estes factores quando se diz "casual"; não necessariamente uma exclusão feita por todos, mas certamente feita de imediato por muitos jogadores.

Infelizmente, uma mudança não é algo fácil de aplicar em termos imediatos.
De Yasako a 10 de Março de 2010 às 23:50
...eu já gostava de ti se fizesses só sentido...mas ainda por cima não és lurker...

"sigh"

Gostava que houvesse mais gente assim.
De Terebi-kun a 11 de Março de 2010 às 00:42
A Yasako e eu agradecemos o comentário. É bom ver alguém com uma opinião própria a dar-se ao trabalho de fazer um comentário honesto. Thank you for showing up!

"Se é em si um jogo casual ou hardcore... Bem. Acho que não interessa."

Yep, era mesmo essa a ideia =)

"EO2 será casual, certamente, no sentido em que não exige uma maior dedicação; será hardcore, também, porque se existir uma dedicação ela é recompensada"

Neste caso, a frase usa as palavras hardcore e casual como propriedades do jogo. Experimentei substituir "Endless Ocean 2" por outros jogos, e a frase continuou a fazer sentido. Freecell, Tetris e Farmville cabem bem lá. Para o meu caso, também descrevia a experiência que tive com o Okami e o Shadow of Colossus. Neste momento (ainda) estou a jogar Final Fantasy XII e Dragon Quest VIII, mas por mês, não devo jogar mais que apenas algumas horas (jogo mais Farmville que isso X) ). Não é que a frase esteja errada, mas não me diz muito sobre o jogo.


"Infelizmente, uma mudança não é algo fácil de aplicar em termos imediatos."

Bem, o objectivo do post era acima de tudo chamar à atenção, nem eu nem ninguém deve estar à espera que as palavras deixem de ser usadas. Que se converse sobre isto, que se pense, que se tenha noção do que significa utilizar estas palavras para falar de jogos.


"tentar definir jogos por outros termos (se bem que aí é outro assunto e é um em que provavelmente discordaria, porque cada vez mais os géneros enquanto rotulação revelam-se inuteis)"

Queria só deixar aqui a seguinte experiência. Há algum tempo atrás, estive a experimentar jogos mais antigos, para PC, e fiquei incrédulo com a variedade que encontrei. Fiquei mesmo com ideia que o que há hoje em dia, em termos de diversidade e de inclassificabilidade, é uma fracção ao lado do que se fazia há, por exemplo, 20-30 anos atrás. Aqui partilho da opinão do Malstrom, quando diz que quem faz os jogos hoje em dia já está tão dentro do "mundo dos jogos" que tem dificuldade em sair de lá. Ou como o Ken Levine disse, "Most video game people have read one book and seen one movie in their life, which is Lord of the Rings and Aliens or variations of that."

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